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OS DOIS IRMÃOS


- Gênesis capitulo 21 versículo 5,14.
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- Abraão nunca imaginou o que estava gerando!
- Sara é quem havia solicitado. Já que não lhe dava um filho, que pelo menos o marido não se sentisse frustrado!
- Um filho lhes faria bem!
- Naquele tempo filho só era filho se fosse gerado. Tratava-se de uma era primitivamente genética. Aliás, quando houve uma única era que não tenha sido genética?
- Sara era meio-irmã de Abraão. Um de seus progenitores os havia tido de cônjuges diferentes!
- Para os nossos padrões eles eram irmãos!
- Afinal, em que igreja eles seriam aceitos como membros se fossem irmãos duas vezes?
- Ou seja: para nós seria incesto!
- Sara sabia que de alguma forma um filho de Abraão também seria seu parente. Estaria tudo em casa. Uma escrava egípcia seria a “barriga de aluguel”.
- Mas Hagar não era um óvulo ou um ventre. Hagar era gente. Hagar amava, desejava, sonhava e gostava de ser escrava de Abraão!
- Quando Sara informou-a que daquele dia em diante ela dormiria com o patriarca até ficar grávida, a notícia não a constrangeu!
- Nem tampouco a Abraão!
- E Hagar não ficou só de “Agá”, tornou-se concubina!
- Sara percebeu que um novo núcleo familiar e afetivo se formara na tenda ao lado e não gostou. O tiro saíra pela culatra. Abraão não amava apenas a possibilidade de ter um filho. Ele se afeiçoara à mãe do garoto!
- Ciúmes de Sara!
- Abraão leva a culpa!
- Hagar é humilhada por Sara!
- Foge!
- Já estava bem longe, no caminho de Sur. Parara junto a uma fonte de água. Então um anjo do Senhor se aproximou dela e lhe disse:
- “Hagar, serva de Sara, donde vens? e para onde vais?”
- Ela respondeu:
- “Fujo da presença de Sarai, minha senhora!”
- Então lhe disse o anjo do Senhor:
- “Volta para a tua senhora e humilha-te sob suas ordens”
- E disse-lhe mais o anjo do Senhor:
- “Multiplicarei sobremodo a tua descendência, de maneira que, por numerosa, não será contada. Concebeste, e darás à luz um filho, a quem chamarás Ismael, porque o Senhor te acudiu na tua aflição. Ele será, entre os homens, como um jumento selvagem; a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele; e habitará fronteiriço aos seus irmãos”
- Quando isto aconteceu Hagar orou e disse as seguintes palavras:
- “Tu és Deus que vê! Não olhei eu neste lugar para Aquele que me vê?”
- Então voltou para casa e lá permaneceu quase 15 anos. Nada se diz sobre o convívio das duas mulheres, mas deve ter sido horrível. Abraão, no entanto, não achou ruim. Amava o filho e a serva!
- Enfim, Sara deu à luz um filho. Nasceu Isaque. Abraão e ela já eram velhos. Hagar era bem mais jovem. E Ismael já era adolescente!
- As conversas de Hagar com Ismael tinham dois temas: o amor de ambos por Abraão e a amargura dos dois para com Sara!
- Ismael respirava a humilhação e vitimização de Hagar!
- O filho de Sara merecia ser humilhado. Os que podem mais humilham os que podem menos. Então Ismael caçoava de Isaque.
- Sara ficou sabendo e explodiu. Ordenou a Abraão que expulsasse de lá os dois!
- Abraão sofreu por ambos. Tal foi sua dor que o próprio Deus lhe falou: “Obedece ao desejo de tua mulher”.
- Na hora da despedida Abraão sofreu imensamente. Deus então fala com ele outra vez e lhe diz que sabia que Abraão sofria também pela escrava e não só pelo menino. Mas o conforta dizendo-lhe nada mais que uma promessa: abençoaria a ambos. Mas o filho da escrava não seria herdeiro com o filho da livre, o que fora gerado de Sara.
- Isso foi há mais de três mil anos. Mas os efeitos dessa amargura nunca se afastaram da consciência dos filhos de Ismael: todas as nações árabes de sempre e de hoje também o sentem. São filhos do rejeitado Ismael!
- Esse mesmo sentimento é usado por Paulo escrevendo aos Gálatas a fim de ilustrar outra dimensão da jornada histórico-espiritual: os judeus haviam se tornado espiritualmente os filhos de Hagar pelo fato de terem desprezado Jesus, o Isaque da Promessa. Dessa forma permaneciam em escravidão espiritual, tentando se justificar na relação com Deus unicamente baseados na carne, na ascendência à Abraão e no pertencimento histórico à História!
- Sabendo disso não há como inferir pelo menos duas coisas. A primeira é que os Árabes de hoje são os filhos de Hagar, segundo a carne. A segunda é que todos aqueles que preferem se gloriar na sua própria história de fé ou nos seus pertencimentos à qualquer tipo de salvação por direito pessoal, estão em escravidão espiritual, segundo Paulo.
- No inconsciente coletivo e na dimensão psicocultural das nações árabes há essa carga descrita pelo próprio Deus como “reativa” e, também, como valentemente independente entre os homens.
- Os judeus históricos e os legalistas existenciais—incluindo também os “cristãos legalistas”—estão na mesma escravidão, segundo Paulo!
- Para esses o murro da inimizade nunca caiu e jamais cairá. Somente em Cristo esse muro é derrubado. Sem Ele esse muro é inabalável.
- Faz a Muralha da China se parecer a um castelo de areia em dia de ressaca no mar!
- Esse muro não caiu dentro da “igreja”, como cairá entre os homens?
- O maior sinal de que o evangelho entrou em algum lugar é que as muralhas de inimizades terminam. Enquanto isto não acontece continuamos todos a ser filhos da escrava. Para Paulo isto incluía a própria igreja, daí ele ter escrito isto aos cristãos da Galácia.
- Os dias de hoje são dias apocalípticos porque eles nunca se pareceram tanto com os dias do Gênesis. Só que agora em escala global. Ironicamente os filhos de Sara e Hagar continuam a guerrear no oriente médio, e os filhos espirituais da escrava a guerrear entre eles mesmos na escala mundial.
- Mesmo a presente guerra tem seus vínculos com aquela primeira história. Ismael continua a ser como jumento selvagem entre os homens e a morar fronteiriço a seus irmãos!
- Sara está chorando!
- Hagar continua a gemer!
- Isaque continua a se sentir especial. Só agora especial por ser especial!
- Ismael continua a caçoar dele, a sentir a rejeição de sua mãe e sentir-se como o filho não reconhecido, mas que jamais saiu de casa, pois nunca deixou o mesmo chão: a poeira do deserto!
- Os Estados Unidos estão nessa por todas as razões erradas. E acabaram se enrolando em cordas históricas e espirituais inquebráveis: vinculados historicamente aos filhos de Sara, eles se orgulham de serem os irmãos espirituais do Isaque-Jesus. Por isto, combatem historicamente os filhos de Hagar, protegem o filho de Sara e não percebem que espiritualmente são filhos de Hagar também.
- Afinal, tanto individual quanto coletivamente, quem quer que creia na Palavra de Deus não entra numa guerra dessas, muito menos assim!
- Estamos no limiar de assistir a um grande levante dos filhos de Hagar. E isto começa a acontecer não apenas nas poeiras dos desertos. Mas também nas potestades do ar. Tanto na geografia quanto na dimensão espiritual as mesmas forças estão crescendo.
- Os personagens do conflito histórico estão aí e sua geografia política é bem definida. Já os personagens da herança da espiritualidade escravizada simbolizada por Hagar, estão espalhando-se por toda parte. Afinal, tanto faz ser judeu, árabe, ou um filho dos Gálatas cristão, o resultado é um só: o fundamentalismo legalista e a mesma atitude de vingança e falta de percepção da Graça!
- Assim guerreiam os escravos entre si, por si, para si, em si e para salvar a si mesmos!
- Deixai os mortos enterrarem os seus próprios mortos!
- Deixai os escravos construírem suas muralhas de separação!
- Tu, porém, vai, e prega o Reino de Deus!
- Caio
- (Escrito em 2003)
- Copacabana
- RJ
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